Last Planner System, nível a nível
Do cronograma da obra ao plano da semana, o Last Planner tem camadas com funções diferentes. Um passeio por cada uma, com o que ela decide e quem participa.
Na parede do contêiner tem um cronograma impresso em quatro folhas A3, emendadas com fita. Saiu do MS Project, tem 400 linhas e foi aprovado na reunião de lançamento da obra. O mestre passa por ele todo dia e não lê. O que ele usa é um caderno, onde anota o que cada equipe vai fazer na semana.
Os dois documentos falam da mesma obra e quase nunca se encontram.
O contêiner e o cronograma de 400 linhas servem de ilustração e não descrevem uma obra real.
Quatro verbos, um ciclo
Ballard (2000) organiza o sistema em torno de quatro verbos em inglês: should, can, will e did. O que a obra deveria fazer, o que pode fazer, o que vai fazer e o que fez.
O cronograma da parede responde à primeira pergunta. O caderno do mestre tenta responder à terceira sem passar pela segunda. Na leitura de Ballard, é aí que o plano se descola da obra. A equipe promete o que deveria ser feito, sem conferir se pode ser feito, e o plano da semana vira uma lista de desejos.
O Last Planner coloca uma camada no meio para fazer essa conferência. Cada nível do sistema tem um horizonte de tempo e um grupo de pessoas responsável.
O plano mestre continua lá
O primeiro nível é o plano mestre. É o cronograma de contrato, com os marcos: fundação, estrutura, vedação, entrega. Ele fica com o engenheiro e com a diretoria, e muda pouco.
Nada no Last Planner manda jogar esse cronograma fora. Ballard trata o plano mestre como o ponto de partida, aquilo que deveria ser feito. O que muda é o uso: a semana é programada no lookahead, e o plano mestre fica como referência de onde a obra precisa chegar.
Entre o plano mestre e a semana, a tese descreve o plano de fase. Para cada etapa grande, como a estrutura ou as instalações de uma torre, as equipes que vão executar se reúnem e montam a sequência juntas, a partir do marco final. A ideia é que quem faz o serviço ajude a definir a ordem e as entregas entre uma equipe e outra.
O lookahead decide o que pode
O segundo nível é o mais esquecido, e na nossa leitura é o que faz o sistema funcionar. Ballard chama de lookahead a programação das próximas semanas, com uma janela de 3 a 12 semanas conforme a obra.
As tarefas entram na janela cerca de seis semanas antes da data de execução. A cada semana, andam uma casa para a frente. Em cada passo, alguém pergunta o que falta para a tarefa poder acontecer: projeto liberado, material comprado, equipe contratada, serviço anterior pronto. Ballard chama isso de análise de restrições.
A regra da tese é direta. Só entra ou avança na janela a tarefa que pode ficar pronta para execução na data. Se o planejador não confia que as restrições serão removidas, a tarefa vai para mais tarde.
É aqui que o deveria vira pode. As tarefas que chegam à semana 1 com tudo resolvido formam um estoque de trabalho liberado.
O plano semanal decide o que vai
O terceiro nível é o plano semanal, montado numa reunião com os encarregados de cada equipe. Eles são os últimos planejadores do nome do sistema: as pessoas que decidem o que a equipe faz na semana.
Ballard (2000) descreve critérios de qualidade para cada tarefa prometida. Ela precisa estar bem definida, a ponto de ser possível dizer na sexta se foi concluída. Também precisa estar liberada, com material e projeto na mão, na sequência certa e num tamanho que a equipe consiga fazer na semana.
Ballard e Howell (1998) chamam esse filtro de proteger a produção. A equipe recebe só trabalho que pode ser executado, e fica protegida da incerteza que vem de cima.
O PPC e as causas fecham o ciclo
O quarto verbo é did, o que foi feito. Na reunião seguinte, a equipe confere o plano anterior, calcula o PPC e anota a causa de cada tarefa não cumprida.
Esse registro é o que permite aprender. Se a causa mais frequente é material, o problema volta para o lookahead, que deveria ter pedido o material antes. Se é projeto, volta para a coordenação.
Muitas obras usam ainda uma conversa diária curta, de pé, no começo do turno. Donarumo e Zandy (2019) descrevem esse encontro como uma reunião curta para manter as equipes alinhadas e trazer à tona o que está travando o serviço. Ela ajuda, mas depende de existir um plano semanal para conferir.
Onde a implantação costuma travar
No Brasil, Bortolazza, Costa e Formoso (2005) analisaram 115 obras acompanhadas pelo NORIE, da UFRGS. A conclusão preliminar foi que a maior parte delas tinha sucesso limitado na implantação do lookahead.
Isso bate com o que se vê em canteiro. A reunião semanal pega rápido, porque o resultado aparece em um mês. O lookahead dá trabalho e o efeito demora. Muita obra fica com o primeiro e o terceiro níveis, e pula justamente o que faz a ponte entre eles.
Voltando ao contêiner: o cronograma da parede e o caderno do mestre podem continuar existindo. O que falta entre os dois é uma planilha de seis semanas, revisada toda semana, com uma pergunta em cada linha. O que falta para essa tarefa poder acontecer?
Referências
- Ballard, H. G. (2000). The Last Planner System of Production Control. Tese de doutorado, University of Birmingham. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/4789/
- Ballard, G.; Howell, G. (1998). Shielding Production: Essential Step in Production Control. Journal of Construction Engineering and Management, v. 124, n. 1.
- Bortolazza, R. C.; Costa, D. B.; Formoso, C. T. (2005). A Quantitative Analysis of the Implementation of the Last Planner System in Brazil. IGLC 13, Sydney. https://www.iglc.net/Papers/Details/387
- Donarumo, J.; Zandy, K. (2019). The Lean Builder: A Builder's Guide to Applying Lean Tools in the Field. Lulu Publishing Services. https://www.theleanbuilder.com/