Linha de balanço para quem nunca usou
Um gráfico com pavimento num eixo e tempo no outro mostra onde cada equipe vai estar e quando duas delas vão se encontrar. Como ler o gráfico e onde ele deixa de servir.
O cronograma da torre tem uma barra chamada “Alvenaria 1º ao 12º pavimento”. Ela começa em março e termina em maio. Logo abaixo, outra barra: “Reboco interno 1º ao 12º”, de abril a junho.
Na quinta-feira, o mestre quer saber em que pavimento a alvenaria vai estar daqui a três semanas, e se o reboco vai encostar nela. O Gantt não responde. As barras dizem quando o serviço começa e termina na torre inteira. Elas não dizem onde a equipe está.
Torre, ritmos e prazos deste texto são hipotéticos, escolhidos para a conta fechar.
Dois eixos e uma reta por serviço
A linha de balanço é um gráfico simples. No eixo vertical ficam os locais: os 12 pavimentos da torre, de baixo para cima. No eixo horizontal fica o tempo, em dias úteis ou semanas.
Cada serviço vira uma linha que sobe da esquerda para a direita. Ela marca quando a equipe entra e sai de cada pavimento. A inclinação é o ritmo. Linha em pé quer dizer equipe rápida, que sobe muitos pavimentos em pouco tempo. Linha deitada quer dizer equipe lenta.
Com isso, a pergunta da quinta-feira se resolve com uma régua. Trace uma vertical na data de daqui a três semanas. Onde ela corta a linha da alvenaria está o pavimento em que a equipe vai estar.
Arditi, Tokdemir e Suh (2002) descrevem a técnica como adequada a obras com atividades repetitivas e lineares. Edifício com pavimento tipo é o caso clássico. Cada pavimento repete os mesmos serviços na mesma ordem.
Quando duas linhas se encontram
O valor da linha de balanço aparece quando há mais de um serviço no gráfico.
Imagine a alvenaria com ritmo de cinco dias úteis por pavimento. Ela começa no 1º pavimento no primeiro dia e termina o 12º no sexagésimo dia útil. O reboco interno, com a equipe que a obra tem, faz um pavimento em quatro dias.
Se o reboco entrar logo atrás da alvenaria, a linha dele, mais em pé, encosta na linha da alvenaria já no 2º pavimento. Daí para cima, a equipe de reboco termina antes da parede estar pronta e fica esperando. No Gantt, isso não aparece. No gráfico, aparece como duas retas que se cruzam.
Há duas saídas. A primeira é atrasar a entrada do reboco até as linhas só se tocarem no último pavimento. Pela conta, o reboco pode começar o 1º pavimento no 17º dia útil e chegar ao 12º logo depois da alvenaria. A segunda é ajustar a equipe de reboco para o mesmo ritmo da alvenaria, cinco dias por pavimento. Aí as linhas ficam paralelas e o reboco pode andar um ou dois pavimentos atrás o tempo todo.
Pulmão entre as linhas
O espaço horizontal entre duas linhas é o tempo entre a saída de uma equipe e a entrada da próxima no mesmo pavimento. Ele funciona como pulmão. Se a alvenaria atrasar dois dias, o pulmão absorve, e o reboco não para.
Na nossa leitura, o pulmão é a parte do gráfico que mais ajuda na conversa com os encarregados. Ele mostra quanto atraso cada equipe pode ter antes de travar a seguinte. Pulmão de zero dias em todos os serviços é plano que só funciona se nada der errado.
Mendes Júnior e Heineck (1998), num artigo apresentado no encontro do IGLC em Guarujá, propõem usar a linha de balanço no pré-planejamento de edifícios. Pela descrição dos autores, o ritmo de cada grupo de serviços parte da sequência do trabalho e da continuidade das equipes. As metas de prazo entram nessa conta, mas não mandam sozinhas.
Como desenhar o primeiro
O primeiro gráfico pode sair numa planilha comum ou até em papel quadriculado. Como regra prática, começar à mão ajuda a entender o que cada linha quer dizer antes de confiar num software de planejamento.
Escolha quatro ou cinco serviços que se repetem por pavimento, como alvenaria, instalações embutidas, reboco e contrapiso. Para cada um, você precisa de duas informações: quantos dias a equipe atual leva num pavimento e em que ordem os serviços entram. O mestre e os encarregados sabem esses números melhor que o orçamento.
Desenhe uma linha por serviço. Depois olhe onde elas se cruzam ou ficam coladas. Esses pontos são as conversas da próxima reunião.
Mendes Júnior e Heineck (1998) apontam uma vantagem na mesma direção: o método pede relativamente pouco dado detalhado de produtividade e volume de serviço, e pode ser feito rápido.
Onde ela não ajuda tanto
A linha de balanço depende de repetição. Na fundação, no subsolo com geometria irregular ou num galpão com áreas muito diferentes entre si, o eixo dos locais perde a regularidade e as linhas viram zigue-zague.
Arditi, Tokdemir e Suh (2002) listam desafios da técnica, entre eles as atividades que não são lineares e o efeito da curva de aprendizado. É o caso da equipe que faz o 1º pavimento em seis dias e o 8º em menos. A linha real é curva, e o gráfico desenhado como reta vai precisar de ajuste.
Nada disso tira o valor do gráfico para a parte da torre que se repete. Para o mestre da quinta-feira, ele responde em segundos a pergunta que o Gantt deixou sem resposta.
Referências
- Mendes Júnior, R.; Heineck, L. F. M. (1998). Preplanning Method for Multi-Story Building Construction Using Line of Balance. IGLC 6, Guarujá. https://iglc.net/Papers/Details/53
- Arditi, D.; Tokdemir, O. B.; Suh, K. (2002). Challenges in Line-of-Balance Scheduling. Journal of Construction Engineering and Management, v. 128, n. 6. https://research.itu.edu.tr/en/publications/challenges-in-line-of-balance-scheduling/