Por obra ou por usuário: como o software de obra cobra
O modelo de cobrança decide quem entra no sistema, e quem entra decide o que o sistema entrega. Os modelos mais comuns, o que costuma ficar fora da tabela e como comparar duas propostas.
R$ 1.985,10 por metro quadrado. Foi o custo médio nacional da construção em julho de 2026 pelo SINAPI, divulgado pelo IBGE em 11 de agosto. Num edifício de 8.000 m², a referência passa de R$ 15,8 milhões.
O edifício é só um exemplo de tamanho, e o SINAPI é um custo de referência, calculado sobre projetos-padrão. Serve para pôr a conversa em escala. O software que vai acompanhar uma obra desse porte ocupa uma linha pequena no orçamento, qualquer que seja o preço. O que pesa é outra coisa: a forma de cobrança influi em quem entra no sistema, e quem fica de fora volta a mandar a medição por mensagem para alguém digitar.
Por usuário, a conta cresce com a equipe
No modelo por usuário, cada pessoa com acesso paga uma licença, em geral mensal. Para uma construtora com uma obra e poucas pessoas no sistema, a conta tende a ficar baixa. Como o número de usuários muda devagar, o custo também é fácil de prever e de aprovar no começo do ano.
O cuidado aparece quando o sistema precisa chegar ao pavimento. Ballard (2000), na tese que descreve o Last Planner System, chama de last planners os encarregados e chefes de turma que assumem o compromisso do plano semanal. São eles que dizem o que vai ser feito e são eles que sabem o que foi feito.
Numa obra vertical na fase de acabamento, quem deveria abrir o app pode passar de uma dezena de pessoas: mestre, encarregado de cada frente, empreiteiros de instalação, técnico de segurança. Com cobrança por cabeça, a tentação é cortar justamente essas licenças. A medição volta por foto no grupo, e alguém no contêiner passa a limpo.
Antes de assinar, pergunte se existe perfil de campo com preço diferente, ou se o encarregado precisa de licença cheia para registrar uma medição.
Por obra, a conta cresce com a carteira
No modelo por obra, a empresa paga por obra em andamento, e o número de pessoas dentro dela não muda o preço. Colocar mais um encarregado no app sai de graça. Em compensação, a obra é paga inteira mesmo quando só duas pessoas usam o sistema, e uma carteira com muitas obras pequenas pode sair mais cara do que no modelo por usuário.
A pergunta que decide a conta é o que conta como obra. Duas torres no mesmo terreno são uma obra ou duas? Obra parada por falta de vendas continua sendo cobrada? E a obra concluída: fica disponível para consulta, por quanto tempo, e a que preço?
Vale perguntar também se o preço por obra cai com a quantidade. Construtora com seis obras ao mesmo tempo e construtora com uma só pagam coisas muito diferentes no mesmo modelo.
Por porte, a conta sai da negociação
Alguns fornecedores cobram por faixa de tamanho da empresa, por pacote de módulos ou por uma combinação dos dois. Como o preço depende do escopo, ele costuma sair de uma conversa com o time comercial, depois de uma demonstração.
Para construtora grande, com vários módulos e integração com ERP, isso pode fazer sentido, porque cada contrato tem um escopo diferente. Para construtora pequena, a falta de preço público dificulta a comparação. Sem um número de partida, cada proposta precisa ser pedida e negociada antes de dar para saber se cabe.
Existe ainda a licença comprada uma vez e instalada no computador de quem programa, comum em software de cronograma. Ela resolve o escritório e deixa o campo para outra ferramenta.
O que costuma ficar fora da tabela
O valor da mensalidade é a parte visível. Antes de comparar, peça por escrito o que entra além dela:
- Implantação ou setup: quanto custa e o que inclui, como importação do cronograma e treinamento.
- Armazenamento de fotos: se há limite e quanto custa o excedente.
- Módulos: quais recursos da demonstração estão no plano proposto e quais são cobrados à parte.
- Contrato: prazo mínimo e multa de saída.
- Reajuste: qual índice corrige o preço e em que mês.
- Saída: em que formato os dados voltam para a empresa se ela cancelar.
O item das fotos merece atenção em obra que mede com imagem. Quinze pavimentos, dois serviços medidos por pavimento, uma foto cada, toda semana: são 1.560 fotos num ano. Com limite de armazenamento, isso vira custo variável sem que ninguém tenha decidido.
Como comparar duas propostas
Monte um cenário da sua empresa e mande o mesmo cenário para todos os fornecedores. Ele precisa de poucos dados:
- Quantas obras vão estar em andamento ao longo dos próximos doze meses, com mês de início e de fim de cada uma.
- Quantas pessoas vão usar o sistema em cada obra, separando escritório e campo.
- Quantas visitas de medição por semana cada obra recebe e quantas fotos cada visita gera.
- Quais integrações são obrigatórias, como cronograma e ERP.
Peça a cada fornecedor o custo total do ano para esse cenário, com todos os itens da seção anterior. O resultado coloca modelos diferentes na mesma unidade: reais por ano para a sua carteira.
Quando um fornecedor não quiser responder sem uma reunião, anote isso ao lado da proposta. Transparência de preço também é um dado da comparação.
Referências
- IBGE. (2026). Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (SINAPI), julho de 2026. Indicadores IBGE, publicado em 11/08/2026. https://ftp.ibge.gov.br/Precos_Custos_e_Indices_da_Construcao_Civil/Fasciculo_Indicadores_IBGE/sinapi_202607caderno.pdf
- Ballard, H. G. (2000). The Last Planner System of Production Control. Tese de doutorado, University of Birmingham. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/4789/