A reunião diária de quinze minutos
Quinze minutos em pé, no mesmo lugar e na mesma hora, antes de a obra pegar ritmo. O que cada encarregado diz, o que fica para depois e como a diária conversa com a reunião semanal.
Sete e dez da manhã, numa roda imaginada para este texto, ao lado do quadro de planejamento, perto do elevador de carga. Seis encarregados em pé em volta do mestre. O engenheiro de produção anota. Ninguém senta. Às sete e vinte e cinco, a roda se desfaz e cada um sobe para a sua frente.
Nesses quinze minutos, o gesso descobriu que a placa do 6º chega só amanhã. O mestre trocou a ordem de dois pavimentos para a pintura não ficar parada.
De onde vêm os quinze minutos
Uma referência conhecida para os quinze minutos vem de fora da obra. O Guia do Scrum, de Schwaber e Sutherland, na versão de 2020, define a reunião diária das equipes de desenvolvimento de software como um evento de 15 minutos, feito no mesmo horário e no mesmo lugar todos os dias úteis. O propósito, segundo o guia, é inspecionar o avanço em direção à meta do ciclo de trabalho.
Na construção, a mesma ideia aparece com outro nome. O site do livro de Donarumo e Zandy (2019), escrito para os mestres e os últimos planejadores da obra, descreve as reuniões diárias como encontros curtos e focados, que mantêm as equipes alinhadas e identificam obstáculos antes que eles virem problema.
Frandson, Berghede e Tommelein (2013) relatam um caso de fachada planejada com takt, num hospital na Califórnia. A construtora acompanhou o plano de produção com reuniões diárias, além da reunião semanal de planejamento. O superintendente fazia o papel de líder e facilitador para os encarregados dos empreiteiros.
Para que serve a diária
A reunião semanal faz as promessas da semana. A diária confere, todo dia, se as promessas continuam de pé.
Uma restrição que aparece na terça precisa ser vista na terça. Esperar até a reunião da semana seguinte quer dizer perder quatro dias de reação. A diária é o lugar onde a placa de gesso que não chegou vira problema de todo mundo às sete e quinze, e não às quatro da tarde, quando a equipe já ficou parada.
O que cada encarregado diz
A sugestão da Redação é limitar a fala a duas coisas, em menos de um minuto por pessoa:
- Onde a equipe está hoje, em pavimento ou zona, e se o que foi prometido para ontem saiu.
- O que pode travar a equipe nos próximos dois dias.
Só isso. Se seis encarregados falam um minuto cada, sobram nove minutos para o mestre resolver o que apareceu e para o engenheiro anotar as restrições novas.
A pergunta sobre o dia anterior importa. É ela que põe no registro o que aconteceu: a tarefa que saiu ou não saiu fica registrada todo dia, e na sexta o PPC já está quase pronto.
O que fica para depois
A diária tem duas regras de corte que valem a pena escrever no próprio quadro.
A primeira: discussão que envolve só duas pessoas sai da roda. O mestre diz “vocês dois ficam depois” e a reunião segue. O problema é resolvido logo em seguida, com quem interessa.
A segunda: replanejamento da semana não cabe em quinze minutos. Se a placa de gesso só chega na semana que vem, a diária registra a restrição e avisa quem é afetado. A troca da sequência de pavimentos, se for grande, vai para uma conversa separada ainda no mesmo dia.
Cobrança de desempenho também fica fora. Encarregado que leva bronca na frente dos outros aprende a dizer que está tudo bem, e a reunião perde o motivo de existir.
Onde e quando
O lugar importa. A reunião acontece na frente do quadro de planejamento, para que cada fala possa apontar para um cartão. Em obra vertical, o ponto bom é perto do acesso aos pavimentos, onde todos passam de qualquer jeito.
A hora também importa. O Guia do Scrum insiste no mesmo horário e no mesmo lugar para reduzir complexidade. Na obra, começar logo depois da entrada da equipe, antes de cada um subir, evita ter de descer depois para conversar. Em dia de concretagem, a reunião pode ficar mais curta, mas não deve ser pulada.
Quem vai
Vão os encarregados das equipes que trabalham naquele dia. O mestre conduz e o engenheiro de produção anota. Técnico de segurança e almoxarife entram quando a pauta pede. Empreiteiro que não manda ninguém precisa ouvir isso do mestre no mesmo dia.
Gerente e diretoria podem assistir, de vez em quando. Na opinião da Redação, se eles começarem a fazer perguntas, a reunião vira relatório para cima e os encarregados param de falar dos problemas reais.
Os primeiros quinze dias
Como regra prática, conte com uma reunião acima dos quinze minutos nas duas primeiras semanas. Os encarregados ainda não sabem o que dizer, e o mestre ainda não aprendeu a cortar. Um cronômetro à vista ajuda.
Quando a reunião estourar o tempo, anote o assunto que fez estourar. Na semana seguinte, esse assunto vai direto para a conversa separada depois da roda.
Referências
- Schwaber, K.; Sutherland, J. (2020). The Scrum Guide. https://scrumguides.org/scrum-guide.html
- Donarumo, J.; Zandy, K. (2019). The Lean Builder: A Builder's Guide to Applying Lean Tools in the Field. Lulu Publishing Services. https://www.theleanbuilder.com/
- Frandson, A.; Berghede, K.; Tommelein, I. D. (2013). Takt Time Planning for Construction of Exterior Cladding. IGLC 21, Fortaleza. https://iglc.net/Papers/Details/902