Ir para o conteúdo
Gerenciadora

Lean Construction para quem toca obraEdição de 16 de outubro de 2026

Lean Construction no Brasil: o que a pesquisa diz

O Brasil estuda o Last Planner em obra desde 1996. O que as bases de dados do NORIE mostram sobre PPC e causas de falha, e o que a pesquisa ainda não conseguiu responder.

Setor · Redação Gerenciadora ·

Um diretor de construtora pergunta ao engenheiro se esse tal de Last Planner funciona em obra brasileira, ou se é coisa de americano. A pergunta é justa. Ballard, que descreveu o sistema, pesquisou obras nos Estados Unidos. Koskela, que levou a ideia de fluxo para a construção, trabalhava num instituto de pesquisa da Finlândia.

A resposta curta é que o Brasil tem quase trinta anos de pesquisa sobre o assunto, com dados de canteiro. A resposta longa está nos artigos, que dizem bastante coisa e deixam algumas perguntas abertas.

A pesquisa começou cedo

Bortolazza, Costa e Formoso (2005) registram que os primeiros estudos de caso de aplicação do Last Planner no Brasil foram feitos em 1996. Desde então, segundo os autores, o sistema foi implantado em um grande número de canteiros, e várias pesquisas acompanharam essa implantação.

Boa parte desse trabalho saiu do NORIE, grupo de pesquisa em inovação na edificação da UFRGS, em Porto Alegre. Carlos Torres Formoso, professor da UFRGS, assina vários dos estudos citados aqui.

O país também recebeu cedo a comunidade internacional. Em 1998, o encontro anual do International Group for Lean Construction, o IGLC, foi realizado em Guarujá. Um dos artigos daquela edição, de Mendes Júnior e Heineck (1998), propõe um método de pré-planejamento de edifícios de múltiplos pavimentos com linha de balanço.

O que 115 obras mostraram

Em 2005, Bortolazza, Costa e Formoso juntaram dados de obras que o NORIE tinha acompanhado em dissertações e teses, mais dados de empresas que usavam o Last Planner havia anos em Porto Alegre. A base começou com 124 obras, executadas entre 1996 e 2004. Nove foram descartadas por terem menos de quatro semanas de dados ou PPC médio de 100%. Ficaram 115.

O PPC médio do conjunto foi de 70,04%. A amostra foi dividida por segmento de mercado, e o de habitação de interesse social teve o PPC médio mais baixo, 64,47%. Os autores atribuem o resultado ao fato de que, nessas obras, o lookahead e a análise de restrições não tinham sido bem implantados.

Em 51 das obras, as causas do não cumprimento das tarefas também foram analisadas, em oito grupos. A conclusão preliminar do artigo é que a maior parte das obras ainda tinha sucesso limitado na implantação do lookahead.

Os autores fazem uma observação sobre o próprio campo. Até ali, a maioria das pesquisas brasileiras tinha se apoiado em análise qualitativa de um ou de poucos estudos de caso. A base de 115 obras foi uma tentativa de olhar a amostra grande.

Mais obras, a mesma conclusão sobre as causas

Moura e Formoso (2009) trabalharam com uma base ainda maior, de 28 empresas e 119 obras. Para o PPC e as causas, os dados disponíveis cobriam 75 obras de 19 empresas, organizados em 512 registros mensais.

O PPC médio ficou em torno de 75%. As incorporações residenciais e comerciais tiveram a média mais alta. As obras industriais e comerciais para clientes privados e as de habitação de interesse social ficaram abaixo. Para as industriais, os autores apontam a alta complexidade e o prazo curto. Para a habitação de interesse social, a dificuldade das empresas pequenas em implantar o sistema.

As causas do não cumprimento foram agrupadas nas mesmas oito categorias usadas por Bortolazza. Mão de obra respondeu por 42% das ocorrências e planejamento por 28%. Somadas as categorias internas à empresa, chegou-se a 81% dos problemas. As causas externas, como fornecedor e clima, ficaram com 19%.

Os autores comparam esse número com outros levantamentos, entre eles um trabalho posterior de Bortolazza (2006), citado por Moura e Formoso (2009), em que as causas internas somaram 77%. A conclusão que eles tiram é que existe um grande potencial de melhoria no planejamento, porque a maioria dos problemas está dentro da própria organização.

O que a pesquisa ainda não respondeu

A pergunta que o diretor de construtora quer ver respondida é se o Last Planner reduz custo. Moura e Formoso (2009) testaram essa relação. Os dados de desvio de custo vieram de uma única empresa. Na regressão, com 51 registros de 10 obras dessa empresa, o resultado mostrou que o PPC explicava menos de 10% da variação do desvio de custo, e os autores classificam o resultado como não conclusivo.

Ou seja, a pesquisa brasileira mostra bem como o PPC se comporta e por que as tarefas falham. A ligação direta entre PPC e custo final ainda pede mais dados, e os próprios autores dizem isso.

Há outro limite que vale ter em mente. Pela descrição das amostras, boa parte dos dados vem de pesquisas do NORIE e de empresas de Porto Alegre. Na nossa leitura, isso pede cuidado ao tratar as médias como retrato do país inteiro.

Fora da universidade

O assunto também chegou às entidades do setor. Em setembro de 2018, a CBIC publicou o relato de uma experiência conduzida com o Senai em uma construtora do Distrito Federal, em agosto daquele ano. Consultores aplicaram técnicas de Lean Construction em dois serviços: aplicação de massa PVA e assentamento de piso.

Para a pintura, a meta declarada era reduzir em 20% o tempo de entrega do serviço. Para o piso, era chegar a 11,39 m² por dia por operador. O texto da CBIC apresenta os resultados em imagens e afirma que foram obtidos sem investimentos, apenas com melhorias no processo.

É um relato curto, de uma obra, e não tem a pretensão de um estudo. Mas mostra que o tema saiu do laboratório e está na pauta de quem representa as construtoras.

Para o diretor do começo, a resposta mais honesta é esta: o sistema já foi implantado e medido em muita obra brasileira, com PPC na faixa de 70% a 75% nas amostras estudadas, e a maior parte das falhas tem causa interna. Quanto isso vale em dinheiro, a pesquisa ainda está medindo.

Referências

Leia também

Comparamos sete ferramentas de acompanhamento de obra

Oito critérios, nota editorial de 0 a 10 e só informação pública. O Agilean ficou com 7,5, logo à frente do PlanoLean, com 7,4. Como chegamos às notas, onde cada ferramenta se destacou e onde ficou para trás.

· Ferramentas

Medição com foto carimbada: o que muda na conferência

Foto com serviço, local, data e percentual gravados na imagem, tirada no pavimento e guardada no celular quando falta sinal. O que essa prática muda na conferência da medição e o que ela não resolve.

· Ferramentas